quarta-feira, 18 de março de 2020

Uma Resposta Espiritual ao Vírus - Mensagem de Sw Tyagananda

Mensagem de Swami Tyagananda: Diretor Espiritual do Vedanta Center of Boston

Uma Resposta Espiritual ao Vírus

O coronavirus está em todas as manchetes. Todos os dias. Em todas as partes do mundo. Todo o resto ficou em segundo plano. O vírus não está mais confinado em uma província ou país em um canto do mundo. Ele está se aproximando a cada dia, a cada hora, e todos estão preocupados.
Na ausência de qualquer medicamento (até agora) que possa prevenir a infecção ou curá-la, nossa única escolha no momento presente é não permitirmos que o vírus entre no corpo. Isso significa que devemos seguir rigorosamente os métodos conhecidos como: lavar as mãos cuidadosa e frequentemente com sabonete e minimizar o contato com superfícies expostas em lugares públicos. E, se o vírus encontrou alguma maneira de nos infectar, é nosso dever nos isolarmos imediatamente, para que não nos tornemos agentes de infecção e espalhemos ainda mais a doença.    

Existe algo mais que possa ser feito? Aqueles entre nós que levam seriamente uma vida espiritual, podem querer se perguntar: além da resposta óbvia e essencial à ameaça da infecção, existe também uma resposta espiritual? Que tipo de pensamentos um estudante de Vedanta pode ter como preparação por uma possível infecção com o vírus — e o que uma pessoa pode fazer em adição às precauções necessárias que já estão vigentes?

1 - Não entre em pânico:

Quanto mais vulneráveis nos sentirmos, mais ansiosos ficaremos. Existem evidências de que a ansiedade pode enfraquecer dramaticamente o sistema imunológico, tornando-nos ainda mais vulneráveis ao vírus. Para sair desse círculo vicioso, precisamos lidar positivamente com nossa ansiedade. Um verso do Panchadasi (7.168) é um lembrete especial daquilo que é óbvio, mas quase sempre esquecido:  

यदभावि न तद्‌भावि भावि चेन्न तदन्यथा । इति चिन्ताविषघ्नोऽयं बोधो भ्रमनिवर्तक: ॥
Yad abhāvi na tad bhāvi, bhāvi cet na tad anyathā;
Iti cintā-viṣaghno’yaṁ bodho bhrama-nivartakaḥ.


“Aquilo que não vai acontecer não vai acontecer. Aquilo que vai acontecer vai acontecer.” — esse conhecimento destrói o veneno da ansiedade e remove a ilusão.
Isso não é fatalismo. Nem significa que não temos de fazer nada, que meramente temos de nos sentar sem fazer nada e deixar as coisas tomarem seu próprio curso. Longe disso. Significa que, depois de termos feito o melhor que pudermos para responder apropriadamente em qualquer situação, reconhecemos que, quando tudo está dito e feito, o que deve ser será, e o que não deve ser não será. Não há nada que possamos fazer além de dar o melhor de nós quando o tempo requer.  

O nosso “melhor” não é uma quantidade fixa. Ele pode mudar, e muda generosamente com o tempo. Fazer o melhor que pudermos, e, tendo feito isso, colocarmo-nos de lado e parar de nos preocupar — essa abordagem ajuda-nos a focar nosso tempo, habilidade e energia totalmente no dever imediato, ao invés de gastá-los por meio da ansiedade e, no processo, enfraquecer a nós mesmos.

2 - Pratique estar sozinho:

Uma das medidas inevitáveis que podemos adotar caso estejamos infectados — ou se suspeitarmos que estejamos infectados — é isolar a nós mesmos, de forma a não espalhar a infecção. Isso significa estarmos sozinhos. Se não estamos acostumados a isso, então a experiência da quarentena será muito difícil de suportar. Agora chegou uma boa hora, portanto, de praticar estarmos sozinhos todos os dias, pelo menos por alguns minutos.

Estar sozinho é diferente de se sentir solitário. Sentir-se solitário é terrível e muitas pessoas sofrem de solidão, mesmo quando estão rodeadas de pessoas. Mas, reconhecer que estamos sozinhos leva a um estado de suprema paz e claridade. Isso soa como um paradoxo; contudo, quanto mais realizarmos esse fato, melhor seremos capazes de nos relacionar com todos e com tudo ao nosso redor. Nossos relacionamentos irão melhorar e nosso trabalho adquirirá um novo significado. Cada um de nós veio a este mundo sozinho e vai deixar este mundo sozinho. Ter o hábito diário de, mesmo que brevemente, estar sozinho, ajuda-nos a viver com sanidade em um mundo cada vez mais frenético.

Uma maneira de praticar estar sozinho é ficar longe da televisão, da Internet e do telefone, pelo menos por alguns minutos todos os dias, e passar mais tempo sozinho em nossa própria companhia. Se nos sentirmos entediados nesse processo, pelo menos saberemos quão tediosos nós somos. Se não conseguimos ficar em nossa própria companhia, que direto temos de infringi-la aos outros?  

As práticas como oração, adoração, meditação, e estudo das escrituras, dão-nos a oportunidade de nos sentirmos confortáveis, mesmo estando sozinhos. Pois, para termos perfeição nessas práticas, precisamos estar sozinhos com Deus, não importa de que maneira ou forma visualizemos o divino. Aqueles que fazem práticas espirituais diariamente estão mais preparados para ficarem sozinhos, voluntariamente ou forçosamente.

3 - Contemple sobre a possibilidade da morte:

Nós geralmente reconhecemos o valor de planejarmos para o futuro, embora nenhum de nós saiba realmente o que o futuro nos reserva. Enquanto planejamos coisas que podem ou não acontecer, quantos de nós têm um planejamento para a morte, a única coisa que é absolutamente certa? A única coisa desconhecida a respeito da morte é a hora e a causa. Nenhum de nós quer morrer logo, mas ter um plano é algo sábio. A taxa de mortalidade pelo coronavírus parece ser baixa, mas isso não nega a possibilidade de eu ser um dos poucos que tornam-se infectados e sucumbem à morte pela doença. Mesmo que sempre esperemos pelo melhor, faz completo sentido prepararmo-nos para o pior.

Uma obsessão neurótica com a morte é uma forma de doença. É debilitante e pode levar a intervenção clínica. Mas, uma abordagem positiva para com o fenômeno da morte não apenas é saudável e fortificante, como também é espiritualmente benéfico. Essa pode ser uma boa hora para começar a pensar sobre a morte — o que ela significa para mim e como poderei encará-la. Os textos espirituais e os mestres dão-nos muitas instruções sobre esse assunto. Swami Vivekananda encoraja seus estudantes a pensar sempre sobre a morte. Suas palavras vêm à mente:
“Veja bem — nós todos iremos morrer (cedo ou tarde). Tenha isso sempre em mente, e então o espírito em seu interior vai despertar. Somente então, o que é pequeno vai desaparecer de você, a praticidade no trabalho surgirá, você terá novo vigor no corpo e na mente, e todos aqueles que entrarem em contato com você também sentirão que obtiveram algo elevado.”

No começo, essa prática de pensar na morte não é nada fácil. Swamiji sabia disso: “A princípio, o coração vai quebrar, e o desânimo e pensamentos nebulosos ocuparão sua mente. Mas persista, deixe que os dias passem assim — e então? Você verá que uma nova força adentrará o coração, que o constante pensamento sobre a morte está lhe dando uma nova vida e tornando você cada vez mais pensativo, ao trazer constantemente diante de seus olhos a verdade do dito: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade!” Espere! Que os dias, meses e anos se passem, e você sentirá que o espírito interior está despertando com a força de um leão, que o pequeno poder interior se transformou em um grande poder. Pense na morte sempre, e você realizará a verdade de cada palavra que estou dizendo.” (CW,5. 329-30)

Nada disso significa que eu vou morrer na presente crise. O que significa é que, na eventualidade de tal possibilidade surgir, eu não serei pego de surpresa e não me encontrarei despreparado. É mais fácil encarar um inimigo se fizermos nossa lição de casa. Talvez, a morte possa nem ser nossa “inimiga”. Mas como saber disso se nós sempre evitarmos pensar sobre ela? As palavras de Sócrates no momento de sua provação vêm à mente: “Mas agora chegou a hora de ir embora. Eu vou para morrer, e você para viver; mas, quem de nós terá o melhor destino, isso só Deus sabe, e ninguém mais.”

Essas três coisas são, portanto, algumas das medidas que um aspirante espiritual pode adotar na presente crise: não entrar em pânico, acostumar-se a estar sozinho, e pensar na morte de forma saudável. Não há dúvida de que essas práticas ajudarão a manter a ansiedade sob controle, nos prepararão para isolamento se for necessário entrarmos em quarentena, e — no caso da eventual fatalidade — encontrar a morte com total consciência e com o coração preenchido de felicidade e paz.

Interessante notar que essas são as mesmas coisas que um buscador espiritual deve fazer, mesmo quando não há uma crise como a que estamos vivendo agora. Os problemas relacionados à velhice, doenças, e morte, em realidade nunca nos deixam, assim como os problemas de estresse, preocupação e medo. Quanto mais praticarmos estarmos livres de ansiedade, ou desfrutar dos momentos em que estamos sozinhos, e de ver a morte não como um fim, mas uma continuação de nossa existência em outra forma, tanto mais descobriremos que estamos todos interconectados, e que a morte não significa o fim de tudo.

Nós damos o melhor de nós quando somos desafiados. A presente crise do coronavírus é um desafio à ingenuidade e força inerente nos seres humanos. Podemos encarar esse desafio com sabedoria e inteligência. Se nos dermos bem, ficaremos mais fortes para encarar desafios ainda maiores que nos esperam. Eles certamente virão e devemos estar preparados.  

Hari Om Tat Sat

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