sábado, 12 de dezembro de 2015

Vós sois o sal da terra

"Ora, se o sal se tornar insosso, com que se há de salgar? Para nada mais serve, sendo para ser lançado fora e pisado pelos homens." Jesus Cristo

Na Índia, quando um discípulo busca um mestre, este, antes de mais nada, procura infundir-lhe confiança em si próprio, e o sentimento de que a fraqueza, a covardia e o fracasso não fazem parte da sua verdadeira natureza. No segundo livro do Bhagavad-Gita, quase às primeiras palavras de Sri Krishna — a encarnação divina — a Arjuna, lemos: "Que fraqueza é essa? Ela está abaixo de você... Livre-se dessa covardia!”

...um grande mestre vê o íntimo do seu coração. Entretanto, ele não o condena por suas faltas e fraquezas. Ele conhece a natureza humana. E porque sabe que, ao sentir-se fraco e deprimido, você não consegue realizar nada, não pode crescer espiritualmente — ele lhe transmite confiança em si mesmo. O mestre não enxerga apenas o que você é agora, mas também as capacidades que você pode desenvolver.

Ao mesmo tempo, impõe-se lembrar a bem-aventurança: "Bem-aventurados os mansos..." A mansidão e a confiança em si mesmo precisam estar juntas. A fé que Cristo incutia em seus discípulos, chamando-os de "sal da terra", não era a fé no Eu inferior, no ego, mas a fé no Eu superior, a fé no Deus dentro de nós. Com essa fé, vem a auto-submissão, a libertação de todo sentimento do ego. Aquele que entrega tudo a Deus, não possui um ego, no sentido comum. Nem consegue ser vaidoso ou orgulhoso. Tem profunda fé no Eu verdadeiro de seu interior, o qual se torna um com Deus.

As palavras de Jesus: "Sois o sal da terra..." relembra-me outras que meu mestre costumava citar-nos: "Vocês têm a graça de Deus, têm a graça do guru (mestre espiritual), e têm a graça dos devotos; mas, pela falta de uma única graça, vocês podem perder-se.”

Qual é essa graça única? É a graça da própria mente, o desejo de lutar em prol da perfeição. Se, a despeito de todas aquelas graças que nos tornariam "o sal da terra", falta-nos a qraça da nossa própria mente, podemos "ser pisados pelos homens". Precisamos empenhar-nos arduamente para entregar-nos por inteiro a Deus — a fim de que a divindade que está dentro de nós possa manifestar-se.
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Fonte: O Sermão da Montanha segundo o Vedanta, Swami Prabhavananda, São Paulo: Pensamento, 1993, trechos do cap. II.


quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Segundo o Hinduísmo, as forças kármicas não governam a vida humana completamente



"Deve ser claramente compreendido que o Hinduísmo nunca diz que tudo o que acontece na vida de uma pessoa é o resultado de suas ações feitas nas vidas anteriores. A força do karma é apenas uma das muitas forças que controlam sua vida. Mesmo com estas forças agindo sobre ele, tem certa quantidade de liberdade de ação também. Ele deveria exercer esta liberdade atuando de uma maneira que o isente de sofrimento ou dor no futuro e ajudando-o a atingir a liberação através da realização de Deus

As escrituras do Hinduísmo, o Bhagavad Gita em particular, também nos dizem que uma pessoa pode livrar-se de todas as suas forças kármicas, exceto aquelas do prarabdha karma, se ele executar suas atividades sem esperar os frutos ou resultados de suas próprias ações. Um devoto de Deus é encorajado a desenvolver a atitude de que suas ações não são para si mesmo e sim para agradar a Deus. A ação feita com esta atitude ajuda-o a libertar-se dos efeitos futuros das ações (kriyamana karma) feitos nesta vida. Também purifica sua mente e assim capacita-o a ter a visão de Deus. Após a visão de Deus ele liberta-se de todo seu sanchita (ou acumulado) karma. Assim atinge a liberação do ciclo de repetidos nascimentos e mortes. Mesmo assim, ele terá que esgotar seu prarabdha karma, das garras do qual nenhum mortal pode escapar completamente. 

Alguns dizem, contudo, que mesmo que não se possa escapar completamente de seu prarabdha karma, a intensidade de suas forças pode ser consideravelmente reduzida ao entregar-se a Deus completamente. Shri Sarada Devi (1853-1920), uma das grandes mulheres santas da Índia, dá suporte a esta opinião. Ela diz, “Entregando-se a Deus um devoto pode reduzir consideravelmente seu prarabdha karma. Por exemplo, se ele estava destinado a ter o ferimento causado por uma espada devido às suas forças kármicas, ao invés disso terá o ferimento causado por uma farpa.”

(As Doutrinas do Karma, predestinação e reencarnação. - Swami Bhaskarananda, monge sênior da Ordem Ramakrishna)

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

O conceito hindu de imortalidade


“A alma do homem é parte de uma Existência infinita que conecta o passado, o presente e o futuro, e transcende tanto o tempo quanto o espaço.” Swami Yatiswarananda (1889-1966) 


"Este Ser não pode ser visto através dos olhos físicos, pois ele não é dotado de forma física. Mas pode ser realizado nas profundezas do coração purificado. Aquele que O conhece se torna imortal." Kaṭha Upaniṣad, 2.3.9

"Cada alma tem que vivenciar estes ciclos de nascimentos e mortes até que se dê conta de que sua natureza real é a consciência suprema, imutável, luminosa – o Ātman. O Ser real ou o Ātman nem nasce nem perece. Isto é o que Śrī Kṛṣṇa diz no Bhagavad Gītā 2.20 (ver também Kaṭha Upaniṣad, 1.2.18), Ajo nityahśāśvato-ayam purāṇo... (Este Ser é inato, eterno, imortal, e embora ancestral, é sempre novo). De acordo com a Vedānta, é ajnāna ou ignorância primordial que cria a noção de escravidão para o Ātman que é intrinsecamente eterno e livre.
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Swami Yatiswarananda foi monge sênior e ex-Vice-Presidente da Ramakrishna Math. Além do trabalho pioneiro na divulgação Vedanta na Europa e ensino de Vedanta nos EUA (Philadelphia), serviu como o presidente do Sri Ramakrishna Ashrama em Bombaim, Madras e Bangalore.
Conhecido pelo nome pré-monástico de Suresh Chandra premonastic Bhattacharya, foi iniciado por Swami Brahmananda (o grande discípulo direto de Sri Ramakrishna), e foi amplamente respeitado por suas altas realizações espirituais, discernimento e sabedoria. Defendeu e viveu uma vida espiritual harmonizada com a meditação como a via principal e amor e serviço como a melodia principal. Ele era uma fonte de inspiração não só para os seus discípulos monásticos e leigos, mas também para um grande número de outras pessoas na Índia e no exterior, a quem ele se tornou querido por seu amor altruísta e por sua maneira graciosa de ser. É autor do livro: Meditation and Spiritual Life, um dos livros que estudamos, com base nas escrituras hindus e nos ensinamentos de Sri Ramakrishna, Sarada Devi e Swami Vivekananda.

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Imagem: Afresco de Michelangelo Buonarotti - A Criação de Adão
Data: 1508-1512 - Dimensões: 280 cm × 570 cm - Localização: teto da Capela Sistina, Roma
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Criação_de_Adão

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Onde quer que estejamos o Infinito estará sempre conosco

"Onde quer que estejamos o Infinito estará sempre conosco. Quando chegamos a esta compreensão, perdemos totalmente o medo da morte. Não devemos cortejar nem a vida, nem a morte. Que o destino siga o seu curso, mas fixemos nosso coração eternamente no Divino. Marchemos destemida, resolutamente, em direção à meta.

Até que você caia no sono, até que você morra, esteja sempre ocupado com pensamentos Vedânticos."
Meditation and Spiritual Life, Swami Yatiswarananda, Kolkota: Advaita Ashram, 2011, cap. 1
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"Aquele que no momento da morte, com a mente firme e cheia de devoção, fixa o prana entre as sobrancelhas pelo poder do yoga, medita sobre o onisciente e primordial Ser, o governador e dispensador de tudo, mais sutil que o átomo e o suporte de todos, cuja forma é inconcebível e resplandecente como o sol, que está além da ignorância, depois de deixar o corpo, chega ao Supremo e luminoso Ser."Bhagavad Gita VIII: 9-10

domingo, 21 de junho de 2015

Por que o dia 21 de junho foi escolhido como o “Dia Internacional do Yoga”?

Neste dia, 21 de junho - “DIA INTERNACIONAL DO YOGA” - felicitamos, na pessoa de Swami Vivekananda, todos os mestres de Yoga do mundo.
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Por que o dia 21 de junho foi escolhido como o “Dia Internacional do Yoga”? 
As Nações Unidas aprovaram uma resolução que considera o dia 21 de junho, de todos os anos, como o Dia Internacional do Yoga (Dia Mundial de Yoga). Narendra Modi, Primeiro Ministro da Índia (seguidor do Mestre de Yoga Swami Vivekananda), convidou a comunidade internacional a adotar o dia 21 de junho como o “Dia Internacional do Yoga”.

Todos os anos no Hemisfério Norte, o solstício de verão cai no dia 21 de junho, que é o dia mais longo e a noite mais curta do ano. É o dia em que a Terra está mais próxima do Sol, em sua órbita. A partir da perspectiva da Yoga, o Solstício de Verão marca a transição do Sol de Uttarayana para Dakshinayana, de acordo com o antigo Calendário Védico. De acordo com os Livros Védicos, foi o dia em que o Senhor Shiva, ensinou Yoga pela primeira vez aos seus discípulos. O conhecimento de Yoga originou-se pela primeira vez de Shiva, neste dia. Assim, considera-se o dia 21 de junho como o dia de aniversário de Yoga. Esta foi a razão pela qual vários professores de Yoga sugeriram para que a comemoração do “Dia Internacional do Yoga” fosse realizada no dia 21 de junho.

Agradecemos ao Swami Ekarthananda pelas informações sobre a escolha do dia 21 de junho, e ao amigo Jandir do Centro Ramakrishna Vedanta de Curitiba por compartilhar.
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"Toda verdade é eterna. A verdade não é propriedade de ninguém; nenhuma raça, nenhum indivíduo pode estabelecer qualquer reivindicação exclusiva sobre ela. A verdade é a natureza de todas as almas." Swami Vivekananda
Toda alma é potencialmente divina, o objetivo é manifestar essa Divindade interior pelo controle da natureza externa e interna. Faça isso através do trabalho, ou culto, ou controle psíquico, ou pela filosofia. Por um ou mais, ou por todos esses meios e seja livre.  Nisso consiste toda a religião.” Swami Vivekananda 
Vídeos:
Vivekananda: America's First Guru – Trailer  http://youtu.be/d5A-flMBh9c
Swami Vivekananda - Uma Síntese (português) http://youtu.be/AYc5jdOWo0w

domingo, 19 de abril de 2015

A graça de Deus e a graça da própria mente

“... Uma máxima hindu diz que um homem pode receber a graça de Deus, de seu mestre e dos devotos, mas se não tiver a graça de sua própria mente vai à ruína. ‘A graça da própria mente’ significa ter o controle sobre ela. Há muitas bênçãos da vida que podem ser alcançadas por meio do controle mental, e no sentido mais elevado é possível alcançar a iluminação espiritual. Uma mente controlada se concentra mais facilmente e, assim, alcança o conhecimento. Conhecimento é poder. Um dos resultados espontâneos do controle mental é a integração da personalidade. Tal pessoa tem êxito mesmo em circunstâncias adversas. Um estado mental controlado conduz à calma, à paz mental e à felicidade. "
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Extraído do livro “A Mente e Seu Controle” de Swami Budhananda 


domingo, 29 de março de 2015

Fazendo a nossa parte

"Devemos fazer nossa parte porque é a única forma de escaparmos desta vida de contradições. O bem e o mal são duas forças que manterão o universo vivo para nós até despertarmos de nossos sonhos e desistirmos de construir castelos de areia. Essa é a lição que teremos de aprender, e cujo aprendizado nos exigirá muitíssimo tempo. 

A Vedanta nos diz que é verdade que o Absoluto, ou o Infinito, está tentando expressar-se no finito, mas chegará um tempo em que descobriremos que isto é impossível. Teremos de bater em retirada, o que significa renúncia, que é por onde a religião começa de fato."

Para ouvir: Há lugar no Ocidente para a Vedanta? - Swami Atmarupananda
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Fonte: Swami Vivekananda. O que é Religião. Rio de Janeiro: Lótus do Saber, 2004, p. 56

sábado, 21 de março de 2015

O Ambiente para Meditação

"Para aqueles que têm essa possibilidade, será melhor ter um quarto só para esta prática. Não durma neste quarto, ele deve ser mantido como sagrado. Você não deve entrar no quarto antes de tomar seu banho e sem estar perfeitamente limpo de corpo e mente. Coloque sempre flores nesse quarto; elas são o melhor ambiente para um Iogue; e também quadros que sejam belos. Queime incenso pela manhã e à tarde. Não discuta, não se irrite, nem tenha pensamentos impuros nesse quarto. Permita que somente entrem nesse quarto pessoas que pensem como você. Assim, gradualmente, haverá uma atmosfera de santidade no quarto e, quando você estiver infeliz, magoado, cheio de dúvidas ou sua mente estiver perturbada, o mero fato de entrar naquele quarto o tornará tranqüilo. Esta era a idéia do templo e da igreja e, em alguns templos e igrejas, você encontrará isso mesmo agora, mas, na maioria deles, essa idéia se perdeu. A idéia é de que, mantendo-se vibrações puras, o lugar torna-se e permanece cheio de luz. Aqueles que não tiverem a possibilidade de ter um quarto isolado, poderão meditar onde gostarem."  

Swami Vivekananda (I. 145)

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Ouça:
O Valor da Meditação - Swami Ritajananda

domingo, 25 de janeiro de 2015

A Prática da Meditação


Os hindus praticam a meditação com a finalidade de chegar a Deus, ao Supremo, ao Absoluto, à Verdade, à Realidade Última que é a nossa própria essência. Depois de ler diferentes livros sobre diversas religiões, reconheci que, em todas elas, o ideal é sempre o mesmo. A meditação é uma técnica para transpor os limites da consciência natural e atingir estados mais elevados. Normalmente, vivemos identificados com o corpo e o pensamento, sem conseguir separar um do outro. Para nós, parece evidente que sem o pensamento não existe personalidade, identificamo-nos totalmente com ele. Precisamos aprender a fazer essa separação, o que é algo bem difícil. Para conseguir isso, devemos praticar a meditação. Por meio dela, podemos obter o total controle de nossa mente ou de nossa faculdade de pensar.
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Autor: Swami Ritajananda
Trecho de artigo publicado na edição número 7 da revista Vedanta - Assinatura

Veja também:
A psicologia da meditação
Meditação e realização espiritual
Nas horas de meditação
Antes de você se sentar em meditação

Ouça: O valor da meditação

A meditação é objeto de estudo e prática mensalmente no Centro de Brasília. 
Você é bem-vind@!

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Swami Vivekananda, Patrono da Juventude na Índia

12 de janeiro, a data de nascimento de Swami Vivekananda foi declarada pelo Governo Indiano como Dia Nacional da Juventude na Índia, tendo em vista seu importante legado e influência.

Video em português.

Ouça também os áudios:
Fortaleza - Swami Vivekananda
A canção do Sannyasin - Swami Vivekananda

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Feliz Ano Novo! Feliz dia de Ramakrishna Kalpataru!

O dia primeiro de janeiro, além de ser o dia de “Ano Novo”, tem um significado especial para os devotos de Sri Ramakrishna. Nesse dia é que o Mestre revelou-se ao mundo e manifestou toda a sua grandeza espiritual. A partir dessa data ele passou a ser chamado popularmente de Kalpataru (a árvore que satisfaz todos os desejos).

Ao se pesquisar sobre o acontecimento, soube-se que os devotos que foram abençoados pelo Mestre naquele dia tiveram maravilhosas experiências e visões espirituais. Alguns deles sentiram-se bem-aventurados com uma espécie de ascensão divina, outros sentiram-se abençoados com o despertar de kundalini (energia vital), outros ainda tiveram visões extáticas de seus ideais espirituais e alguns viram Luz divina. Todas as experiências foram singulares e particulares, e embora tivessem sido diferentes em seu conteúdo, o sentimento de terem participado da extraordinária beatitude divina foi comum a todos eles. Como o Mestre havia concedido sua graça para cada um e para todos, alguns sentiram que ele havia revelado a si mesmo nesse dia como a árvore Kalpataru. Desse modo o dia primeiro de janeiro passou a ser conhecido como o "Dia de Kalpataru".

Năo se pode deixar de imaginar de que existe algum vínculo entre o dia de Ano Novo e o dia em que o Mestre revelou a sua natureza divina. O dia de Ano Novo é um dia de alegria, esperança e de muitas expectativas. Todo ser humano espera ter um novo ano feliz, próspero e pacífico.

Do ponto de vista espiritual, um Ano Novo que signifique uma nova vida, um novo nascimento espiritual, torna-se muito mais significativo porque deixa de ser um fenômeno temporário. Todos os nossos esforços espirituais inicialmente têm em vista apressar a chegada desse Ano Novo. Mas, para poder participar da celebraçăo desse Novo Ano, o ano velho com os seus antigos costumes e desejos tem que ser queimado pelo fogo do discernimento, desapego, oraçăo e devoçăo a Deus. Quando a mente estiver suficientemente pura, esse "Novo Ano" ocorre e, então, Ramakrishna Kalpataru se manifesta ao aspirante e lhe concede a graça divina. Abençoado e fortalecido com essa graça, o aspirante consegue superar os obstáculos sutis que ocorrem nos níveis mais elevados de sua vida espiritual. 

Dessa forma ele năo tem mais dificuldade para purificar sua mente dos desejos sutis e dos impulsos que ainda ali permanecem. Para o aspirante, assim abençoado, cada momento da sua vida se converte em um "Dia de Ano Novo", que o aproxima cada vez mais da perfeição e plenitude espiritual...