quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O coração do devoto é a morada de Deus

"O Mestre continuou: “Mas não se deve esquecer que o coração do devoto é a morada de Deus. Ele habita, sem dúvida, em todos os seres, mas Se manifesta de forma especial no coração do devoto. Um senhor de grandes terras pode, de vez em quando, visitar todos os lugares de sua imensa propriedade, mas dizem que geralmente só é encontrado numa determinada sala de sua casa. O coração do devoto é a sala de Deus.

“Aquele que é chamado de Brahman pelos jnanis, é conhecido como Atman pelos yogis e Bhagavan pelos bhaktas. O mesmo Brahmin é chamado de sacerdote quando faz o culto no templo e de cozinheiro, quando prepara suas refeições. O jnani, trilhando o caminho do Conhecimento, sempre discrimina sobre a Realidade, dizendo: ‘Isto não, isto não.’ Brahman não é nem ‘isso’ , nem ‘aquilo’. Ele não é nem o universo, nem os seres humanos. Discriminando dessa maneira a mente torna-se estável. Logo ela desaparece e o aspirante entra em samadhi. Esse é o Conhecimento de Brahman. É a certeza firme do jnani de que, somente Brahman é real e o mundo ilusório. Todos esses nomes e for-mas são ilusórios como um sonho. O que Brahman é, não pode ser descrito. Não se pode nem mesmo dizer que Brahman é uma Pessoa. É essa a opinião dos jnanis, seguidores da filosofia Vedanta.

“Mas os bhaktas aceitam todos os estados de consciência. Consideram o estado de vigília como real, também. Não consideram o mundo ilusório, como um sonho. Dizem que o mundo é uma manifestação do poder e da glória de Deus. Deus criou tudo – céu, estrelas, lua, sol, montanhas, oceanos, homens e animais. Tudo isso constitui Sua glória. Está dentro de nós, em nossos corações. Também, Ele está no exterior. Os devotos mais adiantados dizem que Ele Próprio tornou-se tudo isso – os vinte e quatro princípios cósmicos, o universo e todos os seres vivos. O devoto de Deus quer comer açúcar e não, tornar-se açúcar. (Todos riem).

“Sabem como o amante de Deus se sente? Sua atitude é: ‘Ó Deus, Tu és o Amo, eu sou Teu servo. Tu és as Mãe, eu sou Teu filho.’ Ou então: ‘Tu és Pai e Mãe. Tu és o Todo, eu sou a parte.’ Ele não gosta de dizer: ‘Eu sou Brahman.’

“O yogi quer realizar o Paramatman, a Alma Suprema. Seu ideal é a união da alma individual com a Alma Suprema. Retira a mente dos objetos dos sentidos e procura concentrar-se no Paramatman. Por conseguinte, no primeiro estágio de sua disciplina espiritual, retira-se para um lugar isolado com atenção concentrada, pratica meditação numa postura estável.

“Mas a Realidade é una e a mesma. A diferença está apenas no nome. Aquele que é Brahman é, na verdade, Atman, e também, Bhagavan. É Brahman para os seguidores do caminho do Conhecimento, Paramatman para os yogis e Bhagavan, para os amantes de Deus.”

O barco navegava para Calcutá, mas os passageiros com os olhos fixos no Mestre e com os ouvidos nas suas palavras impregnadas de néctar divino, estavam inconscientes de todo movimento. Dakshineswar com seus templos e jardins, havia ficado para trás. Os remos batiam nas águas do Ganges, criando um som murmurante, mas os devotos estavam indiferentes a tudo isso. Encantados, olhavam para o grande yogi, a face iluminada por um sorriso divino, o semblante irradiando amor, os olhos brilhando de alegria – um homem que a tudo renunciara por Deus e que não conhecia nada a não ser Deus. Incessantes palavras de sabedoria fluíam de seus lábios.

Mestre: “Os jnanis, que seguem a filosofia não-dualista da Vedanta, dizem que os atos de criação, preservação e destruição, o próprio universo e todos os seres vivos, são manifestações de Shakti, o Poder Divino. Se discriminarmos, veremos que tudo isso é ilusório como um sonho. Só Brahman é a Realidade, tudo o mais é irreal. Mesmo a Própria Shakti não tem substância, como um sonho.

“Mas embora vocês discriminem toda a vida, a não ser que estejam estabelecidos em samadhi, não poderão ir além da jurisdição de Shakti, mesmo que digam: ‘Estou meditando’ ou ‘Estou contemplando’, ainda assim, estariam no domínio de Shakti, dentro de Seu Poder.

“Assim Brahman e Shakti são idênticos. Se aceitarem um, têm que aceitar o outro. É como o fogo e seu poder de queimar. Se virem o fogo, têm que reconhecer também, seu poder de queimar. Não podem pensar em fogo, sem seu poder de queimar, nem podem pensar no poder de queimar, sem o fogo. Não se pode conceber os raios de sol sem o sol, nem se pode conceber o sol sem os raios.

“Como é o leite? Ó, vocês dizem que é algo branco. Não podem pensar em leite sem sua brancura e também, pensar na brancura sem pensar no leite.

“Assim, não se pode pensar em Brahman sem Shakti, ou em Shakti sem Brahman. Não se pode pensar no Absoluto sem o Relativo, ou no Relativo sem o Absoluto.

“O Poder Primordial está sempre em ação . Está sempre criando, preservando e destruindo, como um jogo. Este Poder é chamado Kali. Kali é na verdade, Brahman e Brahman é de fato, Kali. É uma e mesma Realidade. Quando pensamos n’Ela como inativa, quer dizer, não engajada na criação, preservação e destruição, A chamamos Brahman, mas quando Ela está ocupada nessas atividades, A chamamos Kali ou Shakti. A Realidade é uma e a mesma: a diferença está em nome e forma.

“É como a água, chamada em diferentes línguas por nomes diferentes, como ‘jali’, ‘pani' e assim por diante.
Há três ou quatro ghats no lago. Os hindus bebem água num lugar, chamam-na ‘jal’. Os muçulmanos num outro lugar, chamam-na ‘pani’. E os ingleses num terceiro lugar, ‘water’. Os três nomes denotam uma e mesma coisa, a diferença está somente no nome. De algum modo, alguns dirigem-se à Realidade como ‘Alá’, alguns como ‘Deus’, alguns como ‘Brahman’ ou ‘Kali’, e outros por nomes como ‘Rama’, ‘Jesus’, ‘Durga’, ‘Hari’."

Fonte: Evangelho de Sri Ramakrishna, Vol. I, Cap. V,

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